Alunos de 8 a 11 anos da rede pública de Matinhos participaram da soltura de raias-viola-de-focinho-curto após reabilitação
“Essa é a Zezinha!”
“O nome dela vai ser Zazau!”
“Essa é a Cleide!”
“A minha se chama Vitória!”
As crianças deram vida a 28 raias-viola-de-focinho-curto que estavam prestes a serem libertadas no mar. Um grupo de 15 alunos, com idades entre 8 e 11 anos, da rede pública de Matinhos deixou momentaneamente as salas de aula para vivenciar o trabalho de reabilitação e pesquisa realizado pela Associação MarBrasil, em Pontal do Paraná, participando da reintegração dos animais ao seu habitat natural.
Além de presenciar a soltura, os jovens aprenderam sobre as etapas que envolvem pesquisas, monitoramento da saúde dos animais e colaborações com pescadores para conservação da biodiversidade marinha.
Durante a visita, os alunos exploraram as atividades do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), uma ação da Associação MarBrasil com o apoio do Programa Petrobras Socioambiental. O projeto se dedica à pesquisa e proteção de espécies essenciais do litoral, incluindo a raia-viola-de-focinho-curto, também conhecida como raia-gardino ou raia-tuiuiu.
Há aproximadamente 16 anos, o programa mantém uma colaboração com pescadores locais. Quando as raias são acidentalmente capturadas nas redes, elas são entregues à equipe de pesquisa. Na sede da ONG, os animais passam por avaliações e são mantidos em tanques até que estejam prontos para retornar ao oceano.
Os resultados desse esforço são evidentes. Desde o início dessa parceria com pescadores, já foram resgatadas 6.093 raias, com uma taxa de sobrevivência nos retornos ao mar atingindo 96%, conforme destacou Eloísa Giareta, pesquisadora do Rebimar.
Processo antes da devolução ao ambiente natural
Antes da reintegração ao seu habitat natural, cada raia recebe um acompanhamento rigoroso. As condições da água são monitoradas diariamente, levando em conta parâmetros como salinidade, temperatura e oxigênio.
Ao chegarem após serem capturadas, as raias passam por uma avaliação clínica. A equipe coleta amostras de sangue para investigar suas condições de saúde e os efeitos do estresse ocasionado pela captura e deslocamento.
Após cerca de 24 horas sob observação, uma nova coleta é realizada para comparar os resultados e avaliar a recuperação dos animais.
“Os exames determinam o nível de estresse causado pela captura, transporte e exposição ao ar. Após esse período inicial de monitoramento, realizamos uma nova coleta para comparar parâmetros como triglicérides, colesterol e lactato. Este último é um indicador crucial do estresse; imediatamente após a captura ele está elevado e quase normaliza após 24 horas”, explicou Eloísa.
De acordo com a pesquisadora, a diminuição dos níveis de lactato indica que as raias estão recuperadas e prontas para voltar ao mar. Nos tanques, os animais se tornam mais ativos e parecem ansiosos por sua liberdade novamente.
Conexão entre sala de aula e praia
A interação dos alunos com o projeto teve início antes mesmo da visita. A professora Maria Pastorini, que conheceu o trabalho durante um curso voltado para educadores sobre o Rebimar: Mata Atlântica e Oceano, incentivou seus alunos a explorar questões relacionadas à fauna marinha.
Com base no conteúdo aprendido na formação, Maria introduziu temas sobre raias e tubarões em suas aulas. “Recebi diversos materiais durante o curso e decidi compartilhar essa informação com meus alunos”, relatou a educadora.
O entusiasmo aumentou à medida que as crianças foram se familiarizando com as espécies marinhas e os desafios que enfrentam. “Foi fascinante observar o envolvimento deles; quando começaram a ler sobre as espécies ameaçadas de extinção, pediram mais atividades. Ao falarmos sobre a soltura das raias, eles ficaram muito animados.”
Para Maria, essa experiência prática tornou o aprendizado ainda mais impactante. “Eles estão radiantes! É uma vivência inesquecível; muitos nunca tiveram oportunidade semelhante antes e foi um momento divertido também”, afirmou a professora.
Cada aluno adota uma raia
Antes do retorno ao mar, os estudantes receberam instruções dos pesquisadores sobre como manusear os animais e esclarecer dúvidas. Entre as raias que aguardavam libertação havia várias fêmeas grávidas; isso significa que devolver esses animais à natureza também contribui para a preservação da espécie.
A soltura ocorreu na praia em frente à sede da Associação MarBrasil sob supervisão direta da equipe. Cada criança teve a oportunidade de nomear sua raia antes do ato simbólico de devolvê-la ao mar.
Os nomes escolhidos foram bastante criativos:
— “Essa é a Zezinha!”
— “Vou chamar ela de Zazau!”
— “Aqui está Cleide!”
— “Minha é Vitória!”
— “Tchauzinho Luiz!”, despediu-se um aluno.
Como não possuem ferrão, as raias-viola-de-focinho-curto podem ser manuseadas sem risco. Assim que os animais foram soltos nas águas do oceano, gritos alegres e palmas celebraram esse momento especial entre as crianças. A atividade foi finalizada no jardim da ONG com um piquenique.
Para a pesquisadora Renata Daldin Leite, essa interação com os animais pode promover um vínculo mais profundo das crianças com o meio ambiente.
“Permitir que essas crianças toquem nos animais e lhes dêem nomes desperta um sentimento de pertencimento. É uma experiência enriquecedora que une educação ambiental e um instante único para elas; é extremamente gratificante”, comentou Renata.
A aprendizagem continua além da praia
Antes do retorno para casa, os alunos receberam brindes educativos do Rebimar junto com materiais relacionados a outros projetos desenvolvidos pela Associação MarBrasil como o projeto One (Blue) Health. Livros informativos, apostilas e adesivos agora fazem parte dessa experiência que começou na escola e culminou à beira-mar.
Para as crianças, essa atividade também trouxe uma importante mensagem sobre sua responsabilidade individual na preservação dos oceanos.
“Foi incrível! Estou tão feliz! Foi o melhor dia da minha vida! Adorei soltar minha raia! Precisamos cuidar delas não jogando lixo no mar”, afirmou Alice Maria entusiasmada.
A atividade contou ainda com a presença da Miss Eco Paraná, Lucimara Maciel, que participou da soltura de duas raias enquanto conversava com os estudantes sobre a importância da proteção às espécies marinhas.
“Vim hoje de Curitiba para fazer trabalho voluntário focado na educação ambiental relacionada aos oceanos. Nossas ações hoje moldam o futuro que desejamos amanhã”, ressaltou Lucimara ao nomear suas raias como Lola e Apollo.
Marjorie Ramos, técnica em Educação Ambiental do Rebimar menciona que experiências fora das salas tradicionais expandem o contato dos alunos com temas abordados na educação ambiental.
“Esses momentos ficam marcados na memória das crianças; elas absorvem essas vivências fora do ambiente escolar. Esse tipo de atuação é essencial em nosso trabalho assim como exposições itinerantes ou atividades práticas; tanto adultos quanto crianças vivenciam algo singular.”
Texto: Sandra Guimarães / MarBrasil / Rebimar
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